Chamado

Chamado

Vem do outro lado do muro

Do muro de dentro do teu coração

De que lado vem o som puro

Prestar melhor atenção

 

O vizinho já escutou

Não foi você quem chamou

Outros vizinhos ouviram também

Há algo diferente na linha do trem

 

O caminho está assegurado

Vem sendo feito o chamado

Pode a mente furtar-se entender

Vacilar o pensar e se arrepender

 

Chamamento provocante

Acontecendo a todo instante

Não escuta quem tapa o ouvido

Palavras são do Mestre querido

 

Ele não altera o tom

Não muda o discurso bom

Nós que damos de ombros

E terminamos em escombros

 

O chamado na verdade é hino doce

Como cântico de anjos fosse

Daí sofremos na alma e o corpo se reduz

Sem atender a Jesus, único sábio da luz

Quinto Zili

499

Por que Poesia Espírita

Por que Poesia Espírita

Merece uma explicação

Porque adjetivei a poesia

Quando pura e de isenção

Arte prescinde de categoria

 

Foi uma escolha minha

De como divulgar uma filosofia de vida

Poemas, mensagens, o que me vinha

Da doutrina consoladora pelos Espíritos trazida

 

Por humildade e respeito, ainda foi definido

Que se tivesse prévia noção do que se leria

Em que o leitor seria envolvido

Mostrar, de antemão, do que a poesia trataria

 

Quem não aprecia ou desgosta

Descarta antes sem problema

Não quero incomodar, nem a quero imposta

Permitir assim bater o olho e não lê-la

 

E se a Poesia Espírita ferir alguém

Que fira antes a mim, pobre escritor

Ela falará só do amor e do bem

Será minha a licença poética como seu tutor

 

Afinado em Jesus sobre os  variados temas

Humanidade nada perde com esta poesia

Só ganhamos mais meios de entender problemas

No mais, dos Espíritos, é o que se pretendia

Quinto Zili

Naquele viaduto, vidas

Naquele viaduto, vidas

Aquele pequeno espaço tinha servido de casa. De um cômodo, por onde passou e dormiu uma família. Maria, Pedro, três filhos pequenos e dois cachorros.

Uma enchente histórica levou a casa, tudo que tinham e fugindo do perigo, à noite,  acabaram nesse buraco sob um viaduto.

Cidade grande, calamidade, emergência e mais uma família assim como tantas outras se vê em completo abandono.

-Mãe tô com fome, mãããe!

-Quero dormir, não vamos voltar?

-Tenho frio mãe.

As sete bocas nada tinham com o que se alimentar e só tinham um galão de água. O local era úmido, sujo e frio. Mesmo sendo verão de enchentes, o calor esquecera daquele lugar.

-Pai tô com medo, ninguém vai ajudar a gente?

Apesar do desespero, pelo menos as crianças dormiram no calor do colo dos pais e grudados aos cachorrinhos. Pedro antes de amanhecer olhou para Maria e se entenderam quase sem falar. Saiu desesperado para buscar ajuda, alimentos e avisou Maria que se não retornasse até o final daquele dia ela teria que sair dali e levar todos até achar um abrigo de prefeitura. Um dos cachorros simplesmente o acompanhou enquanto o outro montou guarda ficando, com o que pareciam entender o drama e colaborando na segurança.

Pedro saiu bastante desesperado. Caminhava, corria, suava, chorava, pensava e orava em voz alta como a convocar o Teco, seu amigo cão a fazer o mesmo “não posso deixar minha família sofrer desse jeito meu Jesus; me ajuda pelo amor de Deus”.

Subiu e desceu ruas, quilômetros, horas caminhando. Gente olhando para ele com desconfiança. Parecia um indigente, sujo e cansado. Num dado momento viu o Teco inquieto que sai correndo em direção a uma cena pouco distante, dois homens atacando alguém. O cão chega mordendo um deles enquanto o outro ainda tentava tirar pertences da senhora machucada deitada no chão, e antes que Pedro os alcançasse eles fogem covardemente. A velhinha muito machucada, sangrando na cabeça e nos braços sem conseguir se levantar começa a falar:

-Ai minha Nossa Senhora, graças a Deus alguém apareceu. Me ajuda aqui moço. Ai! Ai! Pega ali meus óculos. Os danados me levaram tudo, olha só!

-Eu ajudo a senhora…

-Olinda, filho.

-Pedro, dona Olinda

Ele a carregou por mais de um quilômetro até onde ela morava. Sua casa pequena, mas muito arrumada, se destacava na rua estreita e de poucas árvores. Entraram e ele a levou ao quarto onde repousava seu marido doente numa das duas camas. Apareceram vizinhas que acudiram a senhora. Falavam com ele Pedro, para saberem do acontecido, ao que pacientemente relatava.

Pedro apesar de já inquieto e preocupado  ficou mais um tempo por perto, quase duas horas pois se compadecera da senhora, mas precisava ir embora para continuar sua missão e ao pedir um copo d’água para sair alguém lhe acenou com um prato de comida e um pouco de ração para seu amigo e lhe pediram que fosse ao quarto da senhorinha.

– Coma Pedro. Você deve estar com fome. Carregou muito peso (Risos). Para onde ia, quem é você?

Ele, enquanto engolia a comida e ia olhando pelas paredes os retratos de uma família linda, acabou contando seu drama. Dona Olinda se emociona e ao som daquela narrativa também olha para um pequeno quadro sobre seu criado mudo.

-Quem são dona Olinda?

-Meu filho, nora e meus 3 netos.

-São lindos, que bela família a senhora tem.

-Eram sim. Há dois anos perdi todos num acidente de carro.

Pedro não sabia o que dizer. Ficou mudo, estarrecido. Seu corpo estremeceu e sentiu muita tristeza, a mesma que estava vivendo com sua família em risco.

-Pedro, vá imediatamente buscar sua mulher e seus filhos. Traga-os para cá. Tenho um quarto nos fundos que vocês podem usar por enquanto.

O homem se ajoelhou perante a senhora, beijou suas mãos, olhou para o velho da cama ao lado, que lhe sorria. Saiu em disparada, correndo. Depois de três horas chega com a família mais Teca e Teco.

A vida naquela casa depois de dois meses mostrava o que é se encontrar um oásis em pleno deserto. O casal de velhos entendeu que Deus lhes devolveu a família. Pedro e sua família entenderam que Deus lhes enviou um par de anjos protetores.

Pedro era um faz de tudo na casa e pelos velhos, além de conseguir fazer bicos e conseguir ganhar a vida honestamente e Maria uma pessoa extremamente caridosa que cuidava dos velhos com amor, o mesmo que dedicava aos seus filhos com esmero.

Em seis meses o velho marido de Dona Olinda falece. Ela na sequência também começa a adoecer e por não terem parentes a quem deixar o pouco que tinham, avisa Pedro que se ela morresse ele deveria procurar um tal senhor no cartório do centro.

Dona Olinda havia sido importante professora de uma escola da região e acabou conseguindo lá mesmo matricular os três filhos do casal, Ana, Clara e Junior, 9, 7 e 5 anos. Ensinou tudo o que podia a Maria, inclusive a costurar numa máquina que possuía. Em um ano ela se vai, deixando tudo que tinha para o casal. A casa, economias e uma gratidão enorme pois Pedro e Maria cuidaram dos velhos como se seus pais fossem.

 

Cidade grande, desumana, trágica.

Gente boa, calor humano.

Providência divina.

Desespero e medo.

Amor e compaixão.

Tudo se mistura numa grande cidade. Inclusive vidas”

Quinto Zili

829

 

Apelo

Apelo

Insisto com esse meu apelo

Já há muito lhes faço

Para mim tem sido um pesadelo

Podem crer no meu embaraço

 

É recorrente e digno

Qualquer pedinte o faz

Meu apelo é benigno

Mormente daqui onde se jaz

 

Só uma prece

Uma lembrança pela minha alma

Nada mais me aquece

Fiquei perdido, me findei sem calma

 

E como eu há muitos semelhantes

Parentes, amigos, conhecidos

Apelo por todos cambaleantes

Somos irmãos, não frutos desconhecidos

 

O amor acende uma luz

Mesmo à distância se produz

Um jorro de esperança a quem se conduz

Elo distante até reencontrar Jesus

Quinto Zili

557

Mulher

De onde veio essa coisa de que homem é superior à mulher, sendo que no máximo, na realidade, ele tentar lhe ser igual ainda seria precário. Quando os homens pensavam que elas evoluiriam até atingir o nível deles. Quando tudo, de verdade, se passava ao contrário.

Por excelência de seu existir, ou na dose superior de resignação, as mulheres se curvaram à violência e ao orgulho dos machos de sua raça. Até hoje ainda, elas, em número equivalente porém melhores, os admitem, homens de toscas falhas, a atuarem como os responsáveis pelo mundo. Mera concessão e de graça.

Ora, ora, acreditem ou não, está terminando esse ciclo. O homem finalmente está começando a perceber sua ruidosa e vaidosa condição, de força e violência, truculência e orgulho, e em tendo agora que fazer tarefas erroneamente classificadas como femininas, vai percebendo sua real posição.

E a questão se mostra mais clara aos olhos do espírito, em que não se distingue sexo. No corpo de carne é uma injunção decisiva, de provas, de necessidades, de múltiplas experiências. Perante Deus, somos todos iguais. Corpo e alma. Sempre fomos, sempre seremos. E o homem pleno, esse nunca se viu nem acima nem melhor que a mulher, ao contrário, sempre lhe rendeu reverência pela sua melhor condição de sensibilidade e amor de mãe inatas, que são diferenças naturais criadas por Deus. Elas são superiores aqui na Terra. Elas dão o equilíbrio às relações, pregam paz em vez de guerra.

Rendamos, homens, nossas humildes homenagens à elas. Às nossas mães, esposas, irmãs, filhas, sogras, e à todas indistintamente, que até hoje tentamos subjugar pela força e menos pela inteligência, que sempre nos faltou à mente.

A evolução foi da mulher e do homem, mas elas sempre estiveram à frente. O homem é que saindo da inferioridade, hoje melhorado e menos nocivo, passa a entender agora o seu papel e sua falha milenar de esbulho possessivo.

VIVA AS MULHERES, HOJE E TODOS OS DIAS!!

Quinto Zili

A roda dos expostos e Zeca

Sim, foi naquela roda. Lá que ele nasceu, que o encontraram. Só lhe contaram isso quase no final da vida. Abandono é o sentimento mais duro de suportar. Rejeição.

-Olá, bom dia seu Zeca.

-Bom dia minha filha.

-Trouxe um pouco de comida e leite. Não consegui o seu remédio.

-Você já é um remédio para mim, lembrando desse velho, minha querida.

E essa era a rotina dos últimos dias de Zeca, aos setenta anos, vivendo na rua de dia e se recolhendo à noite ao abrigo da cidade que o acolheu desde criança. À essa altura já sofria de doença reumática degenerativa. Perdera sua pequena oficina e nem podia morar sozinho devido suas precárias condições de saúde e vivia praticamente de doações e ajudas de pessoas amigas.

Foi criado numa creche de Santa Casa porque quando foi achado na roda dos expostos logo surgiu aquela senhora do convento que o levou ao padre da cidade. E assim ele cresceu pelas mãos de pessoas abnegadas. Se tornou jovem, aprendeu ser sapateiro e foi como trabalhou toda a vida, ficando conhecido por toda a redondeza pelas suas habilidades. Por vezes pessoas o procuravam por achar que pelas suas mãos habilidosas no couro, também aconteciam alívios de dores e até curas, segundo muitas testemunhas. Mulheres levavam seus sapatos, sandálias e joanetes e depois de tempos se sentiam livres de dor. Até pés deformados por artrite e dor apareciam curados ao serem tocados por suas mãos. Mas também era mau visto por maridos ciumentos e muitas pessoas descrentes.

Zeca era pessoa calma, bondosa e paciente. Entendia de misericórdia como poucos. Nunca teve curiosidade de conhecer seus pais. Acreditava mesmo que não os tivesse ou os merecesse ter. Seus pais na prática foram as freiras do convento, voluntários da Santa Casa e pessoas de bom coração da cidade. Seus irmãos, todos os outros abandonados, rejeitados como ele.

Teve sua pequena oficina atrás da igreja em cantinho arrumado pela prefeitura e ganhou suas ferramentas do dono da rádio da cidade, seu primeiro freguês. Lá morou e viveu sozinho até se adoecer e não mais conseguir lidar com a bigorna e a turquesa. Suas mãos atrofiaram.

Um dia antes de sua partida para o céu do Senhor Jesus, e ele chorava toda a vez que rezava para Ele e Nossa Senhora Sua Mãe, recebeu uma visita de uma senhora. Logo cedo, já estava na calçada da praça como de costume e ela se aproximou. Ele achou que estava sonhando e não deu de olhos. Sentiu um aroma intenso de incenso de igreja mas não conseguia fixar sua atenção. Ela pousou a mão sobre sua cabeça dizendo:

– Meu filho, vamos agora, chegou a hora de partir e encontrar sua família.

O homem começou a tremer e chorar e tentava descobrir atinando os pensamentos, quem era que lhe falava assim de maneira doce mas firme e então ela mais uma vez lhe falou:

– Sou sua avó meu Zeca querido; estou com você desde o primeiro dia de sua vida aqui nesta cidade.

Zeca chorando compulsivamente, respondeu:

– Mas minha avó, como é seu nome, e minha mãe, meu pai onde estão?

Zeca até então em toda sua vida nunca lembrara dessas figuras e menos ainda que poderia ter uma avó.

– Noêmia e seu avô José, estamos aqui agora para te receber e te levar. Seus pais, você irá encontrá-los quando for do merecimento deles. Fique tranquilo e que Deus o abençoe.

Zeca viveu esse último dia na Terra muito intensamente e foi o mais excitante de sua vida. Seu coração levado por tantas emoções e alegria bateu descompassado e parou naquela noite.  Como ele não apareceu no abrigo, pela manhã o encontraram deitado e no rosto um sorriso, os olhos vidrados como quem vira o passarinho verde.

Essa foi a vida do Zeca, setenta anos de simplicidade, humildade e resignação. Distribuiu amor e caridade. Na verdade retribuiu a caridade e o amor que ele mesmo recebeu apesar da ausência dos pais. A roda o expôs à vida e Deus não o abandonou. Zeca, no seu íntimo, sabia disso.

Quinto Zili

821

Cruz

O tamanho do teu calvário

Revela tua senda anterior

Ou tua entrega ao precário

Do trabalho para o Senhor

 

Dois os meios, uma finalidade

Quem foste no passado

Quem tu serás em verdade

Onde o final não é a cruz do pecado

 

Jesus sim foi à cruz

E demonstrou o bem sofrer

Foi escolha maior, se deduz

Nos ensinou o perdão no limite do ser

 

Se tua cruz é pequena

Calvário é humano benefício

O que importa e vale à pena

Tua ajuda ao próximo com ou sem sacrifício

Quinto Zili

248

 

 

Sorriso

Antipático um rosto

Outro, doce e afável

Uma cara agradável

Outra que só revela desgosto

 

Muitas são as faces

Nem sempre gentis

Talvez muitos disfarces

Angústias em perfis

 

Sorriso de aberto semblante

Nem sempre é alegria

Mas ainda assim alivia

A quem o olhar é desconcertante

 

Exercício de fazer melhorar

No rosto um sorriso leve plantar

O que custa o esforço de demonstrar

Pelo menos educação quando outro lhe fitar

 

Ainda notarás o benefício

Te tornarás mais bonito

Quem te olhar agradecerá tal resquício

Colherás do bem com teu suave fito

Quinto Zili

484

 

Diabo

Pior fantasia do homem

Alegoria da destruição

Que o ser humano veste

Quanto e quando quer parecer a peste

 

Pintam o diabo de vermelho

Quem ele é, o macabro

Onde mora e tal

Longe da casa moral

 

Fetiches e basbaques

Ignóbeis retoques

Quanto mais retratá-lo

Menos se faz destruí-lo

 

No fundo é o mal

Fantasiado de tudo

Passa por bom, por amigo

Deixa o rastro sempre de perigo

 

Espanta crianças, moços e velhos

Existe forte em nossa imaginação

Como figura e ser nada é

Mas como possibilidade é tudo até

 

Se o diabo fosse só o que pintamos

O bem já o teria vencido

É pior, mais forte, pelo fel movido

Feito do mal que nós mesmos praticamos

Quinto Zili

423